Saturday, May 29, 2010

Defesa moral da porstituição


Você respeita a atividade de um profissional do sexo tanto quanto respeita a atividade exercida por um engenheiro, ou por um professor ? Se fizéssemos esta pergunta para pessoas de diversos segmentos e de diferentes categorias sociais, provavelmente a maioria das respostas seria não. Se perguntássemos o porquê, provavelmente descobriríamos, ao analisar as respostas, que a valoração profissional que cada pessoa faz, está calcada em uma escala de valoraização moral, escala esta que, como pretendemos mostrar aqui, está baseada na introjeção da concepção judaico-cristã daquilo que é efetivamente "moral".
A moral, tal como a compreende o homem moderno, entendendo como "homem moderno" o homem comum, a maioria da população, aquelas pessoas com as quais cruzamos diariamente nas ruas, no trabalho, no cotidiano, está baseada, conforme afirma Nietzche1 nas noções de "culpa", "má consciência" e nos "ideais ascéticos". Interessa-nos aqui, compreender o que são ideais ascéticos.
Os ideais ascéticos podem ser compreendidos através de três noções: humildade, pobreza e castidade. O asceta trata a vida como um caminho errado, e tal modo de valorar, não é uma exceção, porém é um dos fatos mais difundidos e duradouros que existem. Não pertence a nenhuma raça ou classe, mas floresce em todas. O asceta diz não à vida, diz não aos instintos, e sente nojo do homem. Para ele não deve haver desejo, deve ser evitado o que produz afeto e o que produz sangue, não deve haver amor, nem vingança, nem enriquecimento, nem sexo, ou sexo o menos possível. O resultado disto em termos psicológicos e morais é a renúncia de si. O querer do asceta surge de uma negação e se orienta a partir do ódio ao humano, do ódio ao que é animal, do ódio à matéria, do horror aos sentidos, do anseio de afastar-se daquilo que representa mudança, morte, devir e desejo. É a renúncia a compreender plenamente o homem e a natureza humana.
É a partir deste horizonte que devemos compreender a voloração que a maioria das pessoas faz das profissões acima citadas. Se a moral judaico-cristã, que tem entre seus princípios o ascetismo, é a moral predominante no mundo moderno, e ela está baseada na negação dos instintos, então é claro que a atividade do profissional do sexo não será valorizada como as outras. Não apenas acontecerá isso como ela será taxada de "imoral". Vamos seguir adiante, tentando compreender exatamente como se dá este processo de valoração.
Inicialmente vamos caracterizar as semelhanças e diferenças entre as três atividades que estamos comparando. Tanto o profissional do sexo, quanto o engenheiro e o professor estão vendendo alguma coisa. As diferenças estão naquilo que é vendido. O primeiro vende prazer sexual, o segundo vende melhoria de condições materiais de vida, o terceiro vende conhecimento. Se o critério para caracterizar essas atividades como morais ou não é o fato de haver comércio, então, todas deveriam ser consideradas imorais, porque em todas existe comercialização de algo. Como o senso comum não caracteriza as atividades do engenheiro e do professor como imorais, então, está descartada a hipótese de que o critério para determinar uma como imoral e as outras como não imorais é o comércio. Sobra, então, a hipótese de que o critério de distinção esteja nos objetos dessas atividades. Veríamos, então, que o senso comum caracteriza o comércio de prazer carnal como imoral, mas não classifica como imoral a atividade de comercializar o conhecimento (seja ele técnico ou puro ). Isto mostra que já há aí um juízo de valor: comercializar conhecimento não é imoral, comercializar prazer carnal é imoral.
Vamos aprofundar nossas distinções. Se é imoral o comércio do prazer carnal, mas não é imoral o comércio do conhecimento, então o problema moral se coloca em relação à questão do prazer e é isso que vamos investigar.
Na concepção religiosa cristã, sexo e amor devem andar juntos, de tal modo que consentir o primeiro sem o segundo constitui pecado. A palavra pecado vem do latim peccare que significa "cometer uma falta, errar, enganar-se". Assim, praticar sexo fora de uma relação conjugal ou comercializar sexo, seria "cometer uma falta".
Mas se fizéssemos um breve estudo dos fundamentos das relações conjugais não seria possível concluir que estas também são uma forma de se relacionar comercialmente ? O sagrado matrimônio, no qual um homem e uma mulher juntam suas vidas, seu dinheiro e suas propriedades diante da Igreja e do Estado, prometendo fidelidade até o fim de suas vidas, nada mais é do que um contrato. Um contrato que estabelece um vínculo que deve durar toda a vida. Até suas mortes, a partir do momento da assinatura do contrato, o homem e a mulher devem manter relações sexuais apenas entre eles e, na grande maioria dos casos (casamento com separação parcial de bens ) tudo que vierem a adquirir pertence aos dois. Isto é ou não é uma forma de comercializar inclusive o sexo ?
É para evitar que se interprete desta forma o matrimônio que a Igreja estabelece um discurso subjacente, de que o casamento deve estar baseado única e exclusivamente no amor. Um casamento no qual houvesse qualquer tipo de interesse que não o mero amor entre duas pessoas de sexos opostos, seria, também, moralmente condenável.
Cabe, estão, uma breve análise sobre o conceito de amor. A filosofia, desde a Grécia antiga, tem tentado elucidar o conceito. Platão no seu Banquete e no Fedro2 nos fala do amor como uma loucura inspirada pelo deus Eros. A literatura também nos fornece subsídios para a análise. Em Romeu e Julieta de Shakespeare apresenta-se o amor eterno, tão forte que é preferível morrer do que ficar sem a(o) amada(o).
Porém, nem a filosofia, nem a literatura, nem a ciência conseguiram estabelecer com clareza, até agora, o que é o amor. Quando a Igreja diz, pois, que o casamento deve estar baseado no amor, cabe uma pergunta: que conceito de amor está sendo referido aqui ? Se a resposta for o amor erotizado que existe entre os casais, cabe a observação de que uma pessoa X pode sentir esta forma de amor, por K, W, Z, e não apenas pelo seu esposo(a) Y. E se for assim, porque efetivar suas relações apenas com Y ? Não seria, talvez, porque Y se torne interessante aos olhos de X por possuir um conjunto de atributos físicos, intelectuais, econômicos, sociais ou morais que acabam deixando claro que o amor é sempre interessado ? Se, ao contrário, a resposta for o amor deserotizado, qual seria a diferença entre este tipo de amor e aquilo que os gregos chamavam de philia, ou seja, o que modernamente chamamos de amizade ?
O conceito de amor deve ser desmistificado. Este sentimento, no qual a moral cristã sustenta que deve estar baseado o casamento, ou envolve alguma espécie de interesse ( seja sexual ou não ), ou trata-se de amizade, sentimento que nossa cultura costuma distinguir do amor. Se envolve alguma espécie de interesse, esse interesse pode ser sexual e, assim, quando as pessoas se casam, elas estão fazendo uma espécie de acordo comercial que envolve o sexo, acordo este que pode ser do tipo "de hoje em diante só praticaremos sexo entre nós dois", ou, no caso de alguns casamentos pós revolução sexual dos anos 60 "só praticaremos sexo com terceiros quando ambos estivermos presentes", ou seja qual for o tipo de acordo que o casal estabeleça. Mas, o importante a salientar é que seja qual for o tipo de relação que os casais venham a estabelecer, tratam-se de acordos, de contratos, de trocas, de comércio. Comércio em que a questão financeira pode até não estar diretamente envolvida, mas segurança ( seja ela afetiva ou não ), desejo, sexo, carências e afetos, certamente estão.
Estamos, então, no âmago da questão. Se o casamento também envolve comércio, inclusive de sexo, porque, segundo o modo da valoração judaico-cristã, o casamento é uma coisa boa, e a prostituição uma coisa ruim ? E a única resposta racional que é possível encontrar é que o casamento sob qualquer forma, antigo ou moderno, tradicional ou alternativo, hetero ou homossexual, enquadra a sexualidade, e se não limita esta qualitativamente, estabelece limites quantitativos. Já a prostituição, ao contrário, traz em si, intrinsecamente, a expansão da sexualidade, a possibilidade de relações com um número quase infinito de parceiros.
Para entender isso melhor vamos examinar a essência dos dois contratos, ou seja, o contrato de casamento e o contrato de prostituição. A essência do primeiro é a permanência, enquanto que a essência do segundo é a efemeridade. No casamento, mesmo que isso na maioria dos casos não aconteça, parte-se do pressuposto que a relação é "para sempre", ou como dizem os padres no ritual de celebração "até que a morte os separe". Na relação com um profissional do sexo, ao contrário, o pressuposto é exatamente o oposto. Pressupõe-se uma troca momentânea, geralmente de prazer por dinheiro, e que quando esta troca estiver realizada, acaba-se o envolvimento.
Observe-se que nem sempre os casamentos duram até a morte, e que nem sempre as relações entre os profissionais do sexo e seus clientes acabam sem um envolvimento mais duradouro. Mas o que interessa é que é constitutivo destas relações que elas devem se desenvolver, as primeiras ( casamentos ) durante a vida inteira, e as segundas ( prostituição ) por um período de tempo determinado e preferencialmente não muito longo.
O casamento, então, intrínseca e pretensamente eterno, traz em si a limitação do número de parceiros sexuais e seu regramento, já que mesmo nas chamadas relações abertas estabelecem-se regras que deverão ser para sempre respeitadas, e mesmo que exista a possibilidade de modificá-las, dada a própria essência do casamento, isto não é feito a todo momento. Já as relações de prostituição, intrínseca e supostamente efêmeras, trazem em si a possibilidade de expansão do número de parcerias sexuais e seu desregramento, já que se um profissional do sexo ou um cliente não aceita determinadas regras, outro poderá aceitá-las, tornando infinitos os modos e as possibilidades de relacionamento.
Podemos agora apresentar um quadro resumido do que foi até o momento analisado referente ao modo de valoração judaico-cristão:

1 - O comércio do conhecimento é considerado normal e até louvável.
2 - A prostituição é considerada imoral.
3 - O casamento é moral e é um dos pilares de sustentação da sociedade.

Observe-se, então, que segundo este modo de valoração, aceita-se o comércio, mas não se aceita o comércio de sexo, ou melhor, não se aceita um tipo muito especial de comércio de sexo, qual seja, aquele que é passageiro, efêmero e absolutamente verdadeiro.
Passemos agora a analisar em que medida podemos caracterizar as relações de prostituição como sendo relações verdadeiras.
Segundo Aristóteles3 , afirmar o verdadeiro é dizer daquilo que é, que é ( e do que não é, que não é ), enquanto que afirmar o falso é dizer daquilo que é, que não é ( e do que não é, que é ).
Quando um cliente procura um profissional do sexo, está já estabelecido que ele deseja sexo e prazer e que o profissional do sexo quer ser recompensado financeiramente para saciar este desejo do cliente. Trata-se, em última instância, de uma prestação de serviço. Há uma cláusula contratual implícita que é a seguinte: "Eu desejo prazer e pagarei por isto". Isto é exatamente a mesma coisa que acontece em qualquer contexto de vendas de produtos ou serviços em nossa sociedade, que é sempre na forma "Desejo x e pagarei por x". Acontece em um supermercado, em uma revenda de automóveis, em um consultório de um médico ou de um psicólogo. E, curiosamente, ninguém diz de nenhuma destas relações que elas são imorais.
As relações de prostituição, então, são intrinsecamente verdadeiras, à medida em que estão inseridas em um contexto de verdade. O cliente deseja prazer e isto está claro quando ele busca um profissional do sexo. Este, por sua vez, deseja recompensa financeira e isto também está evidente. Tudo está absolutamente explícito e cumpre-se, assim, a condição aristotélica do verdadeiro à medida que o desejo de prazer do cliente e de recompensa financeira do profissional (aquilo que é), está afirmado (diz-se daquilo que é, que é ).
Este contexto de verdade em que se insere a relação de prostituição não ocorre em outros tipos de relações, que estão fundadas, poderíamos dizer, em contextos de falsidade. Quando analisamos o casamento, por exemplo, vimos que embora difunda-se a idéia de que o que fundamenta o casamento é o amor, vimos que o amor é sempre interessado, e que, portanto, o que fundamenta o casamento, em última instância, é o interesse. Assim, estamos já inseridos em um contexto de falsidade, à medida em que se diz que o fundamento do casamento não é o interesse (seja de que espécie for) quando na realidade é.
Já vimos, então, até aqui, dois traços distintivos das relações de prostituição e que entram na definição de sua essência: são relações efêmeras e verdadeiras. Há um terceiro traço distintivo que é o da afirmação da sexualidade e do prazer. As relação de prostituição dizem sim à sexualidade à medida que têm nela sua razão de ser. Trata-se da valoração do instinto natural. Elas deixam claro que os seres humanos são seres desejantes, seres sensíveis que possuem um instinto animal que não pode ser extirpado da raça humana.
Temos agora uma visão completa do que constitui a essência das relações de prostituição. Elas são efêmeras, verdadeiras e afirmam a sexualidade e a animalidade. É possível, então, compreender agora com clareza porque a sociedade as considera imorais. Acontece que a moral dominante em nossa sociedade é a judaico-cristã, e está calcada justamente na negação do efêmero, na negação da verdade do desejo. O modo de valoração judaico-cristão nega a história, nega este mundo, nega a vida e cria um outro mundo, um mundo metafísico, que ela usa como referencia para fundar seu conhecimento, sua ciência, seus juízos, seus valores. Este mundo metafísico nega tudo o que é natureza, contingência, devir. Nega tudo que é efêmero e passageiro.
Este mundo metafísico caracteriza-se, também, por inverter verdade e mentira. Ao negar o mundo tal como ele é, e os homens tal como eles são, ele ignora a natureza humana, concebendo um mundo ideal que não possui existência. Perigosamente, porém, os arquitetos de tal mundo vendem sua mentira, e fazem deste mundo metafísico o mundo verdadeiro. E esta é a fonte da imensa mentira em que está imersa a sociedade moderna. Ao tomar como verdadeiro este mundo ideal, e ao negar a natureza humana, a moral judaico-cristã cria a fonte filosófica de sua grande inversão, que é a inversão de valores, a inversão moral.
Estamos agora no ponto mais central de nossa análise. O modo de valoração judaico-cristão não aceita o efêmero, o verdadeiro, o animal. Esses três elementos, porém ,são constitutivos das relações de prostituição e é por isso que a moral dominante taxa a prostituição de imoral.
Porém, a moral dominante, a moral judaico-cristã está fundada em uma mentira, em uma grande inversão filosófica, que é o mundo metafísico, ideal, conceito que surge já em Platão. Ao fundar seus valores neste mundo ideal e inexistente é claro que seus critérios de valoração, e por conseqüência seus juízos, são suspeitos, à medida em que estão baseados nesta inversão ontológica. Sendo assim, o modo de valorar dominante é um modo de valoração invertido. Quando, pois, a moral dominante diz da prostituição que esta é imoral, devemos ter claro as fontes de tal tipo de juízo de valor e seu contexto de enunciação. Com isto podemos evitar o embuste e dizer que imoral é esta grande mentira filosófica que desconsidera o mundo tal como ele é, imoral é a moral dominante, imoral é este modo de valoração invertido que impera em nossa sociedade.
Cabe considerar aqui, porém ,que o modo como se estrutura a moral judaico-cristã é extremamente complexo, de modo que modificar o modo de valoração não significa inverter os valores de modo ingênuo, simplesmente invertendo bem e mal ( colocando o mal no lugar do bem e vise-versa ). É por isso que Nietzche vai nos falar não de inversão de valores, mas de transvalorização de todos dos valores. Transvalorizar implica compreender todos os mecanismos da moral dominante, manter aquilo que é positivo e destruir o que é negativo. É importante compreender em que aspectos a moral dominante é perversa e imoral, e é fundamental ter consciência desta imoralidade para minimizar os efeitos dos julgamentos de seus moralistas sobre nós e nossas vidas.
A defesa moral da prostituição que faço neste texto é uma defesa feita a partir de um ponto zero. É uma defesa feita a partir de um modo de valoração distinto do dominante, que procura aproveitar aquilo que pode ser aproveitado deste e destruir o resto. Esta destruição deve ser feita através de uma desconstrução do discurso da moral dominante, indagando sobre qual é o valor de seus valores.
A defesa moral da prostituição só pode ser feita a partir desta ótica, que é o questionamento do valor dos valores dominantes, e da construção de uma nova escala de valores, de um novo modo de valorar, de uma nova moral. A construção desta nova moral passa pelo questionamento cotidiano dos valores dominantes e das práticas que estão a ele subordinadas, passa pela denúncia de todo tipo de preconceito, de todo tipo de injustiça, e principalmente, pela ação rebelde cotidiana.
Esta ação rebelde cotidiana tem infinitos modos de expressão. Ela pode se dar quando se luta por um direito enquanto consumidor, quando se exige ser bem tratado em uma repartição pública, quando se denuncia um concurso fraudulento, quando se cobra o retorno em investimentos sociais dos impostos que se paga ao governo, quando nos espantamos com alguma injustiça e espalhamos as histórias verdadeiras de ouvido em ouvido, tentando fazer frente às falsas versões espalhadas pelos microfones oficiais.
A moral judaico-cristã nos dias de hoje toma formas externamente preocupantes. Trata-se de um monstro que tem o singular caráter de não se deixar ser visto. É exatamente esta sua sutileza que é devastadora. A Igreja já não queima bruxas em praça pública, mas quantas bruxas contemporâneas não estarão sendo despedidas de seus empregos sob alegações das mais diversas quando o motivo real é o preconceito ? Os negros não são mais formalmente escravos, mas quantos não são sutilmente descriminados dos modos mais diversos e perversos ? Alguns homossexuais acreditam que estão começando a ser socialmente aceitos, mas como Pedro negou Jesus, quantas vezes devem negar a si aos seus para obter esta aceitação ?
Este preconceito velado é a forma mais maligna de preconceito, e ao mesmo tempo, revela a essência da moral judaico-crstã, que é apresentar a mentira como se fosse verdade e falsear os fatos, de modo a apresentar a vida e o mundo como sendo aquilo que não são. Além das mulheres, dos negros, dos homossexuais, dos profissionais do sexo, são vítimas desta moral imoral todos aqueles que ousam exercer a atividade do raciocínio e que se negam a aceitar aquilo que dizem ser certo, quando o exercício da razão mostra que este certo é, de fato, errado.
De tudo isto, podemos concluir que existem dois modos de valoração distintos. Um é o modo de valoração judaico-cristão, que é o modo dominante, e outro, ainda não bem definido, que está se gestando no ventre da sociedade ocidental contemporânea. Ao modo de valoração judaico-cristão que, como já vimos, é perverso em muitos aspectos, chamaremos de velho moralismo. E a este novo modo de valoração que ainda está em construção, chamaremos de nova ética.
A distinção entre ética, moral e moralismo, nunca ficou muito bem estabelecida na filosofia. Hegel foi o filósofo que talvez tenha mais aprofundado a distinção quando distinguiu moralidade e eticidade4 . Grosso modo, a moralidade para ele seria a consciência moral subjetiva, kantiana por excelência, que leva em consideração apenas o imperativo formal e não considera o homem inserido em um contexto social e membro de um Estado. A eticidade seria a consciência moral objetiva, que considera o homem dentro deste contexto. Assim, o estágio da consciência ética estaria em um degrau superior da consciência moral.
Esta concepção hegeliana não me satisfaz. Acredito que um bom modo de compreender a questão da moral seria utilizar os conceitos de duas escolas filosóficas distintas, que são a escola nietzscheana e a escola kantiana, aproveitando os pontos positivos de cada uma delas e descartando seus aspectos negativos.
Proponho que seja resgatada a noção de moral, entendendo moral como um conjunto de princípios, valoras e regras que deve orientar a ação humana e a partir do qual estabelecemos juízos práticos. Quando esses princípios negam o fator da animalidade humana e não estão fundados no uso correto da razão, eles fundam um modo de volorar que é moralista. Assim é que a moral judaico-cristã, asceta par excellence, e que surge de um não a tudo que é instinto e animalidade, é uma moral moralista.
É possível, porém, pensar um modo de valorar distinto do dominante. Trata-se de uma moral porque obedece à definição de moral, ou seja, trata-se de um conjunto de princípios a partir dos quais valoramos e julgamos. Diferentemente do moralismo, porém, ele se funda na afirmação da animalidade, ou seja, na compreensão exata da natureza humana como cindida entre o animal e o racional, e num uso correto da razão. A este modo de valorar, a esta moral, poderíamos chamar de nova ética.
A palavra ética vem do grego ethos, cujo um dos significados é hábitos. Acredito que o bom modo de conceber hábitos é sempre subordinando-os a princípios e regras, e portanto, subordinando-os à moral. Assim não considero que a ética seja superior a moral. Considero que a ética deve ser uma forma de desdobramento da moral e que deve estar a ela subordinada. Assim é que todas as éticas que se estabelecem nos diversos modos de relação na sociedade humana devem estar subordinadas a uma moral. Proponho que esta moral, que deve fundamentar todos os juízos, chame-se de nova ética, que seriam os novos ethos, os novos hábitos. Um dos princípios desta nova ética seria a defesa do livre-arbítrio humano, o direito de todo ser humano escolher para si aquilo que ele crê que é o melhor para si desde que esta escolha não atente contra a vida, a liberdade e o direito de terceiros.
Teríamos, então dois modos de valoração distintos. O modo judaico-cristão, que chamamos de moralista, e este novo modo de valoração, que está ainda em construção, e que chamaremos de nova ética. Dentro deste novo modo de valorar, dentro da nova ética, a pergunta sobre a moralidade da prostituição seria do mesmo tipo da pergunta sobre a moralidade da profissão de médico, de engenheiro, advogado, professor, padeiro, etc... A forma geral da questão seria "A profissão X é imoral"? E para qualquer uma destas profissões acima citadas a resposta seria não. Na realidade não é imoral a venda de prazer, do mesmo modo que não é imoral a venda do conhecimento ou da força de trabalho, já que são comercializadas de um modo livre, ou seja, ninguém obriga ninguém a fazê-lo contra sua vontade, e terceiros não são prejudicados por estas práticas.
O fato de que a prostituição não seja imoral, porém, não implica a permissividade com relação a atos imorais que podem estar a ela vinculados. Assim, é óbvio que um indivíduo que obriga uma criança a prostituir-se está agindo imoralmente. Mas não por causa do prostituir, e sim por causa do obrigar. Este ato é tão imoral quanto obrigar uma criança ou qualquer pessoa a trabalhar em qualquer profissão e depois extorquir seu dinheiro. Quem exerce coação deste tipo sobre um terceiro que não coage ninguém está ferindo o direito que este terceiro tem à liberdade e ao exercício de seus direitos e, nesta medida, está ferindo ao princípio que nos referíamos acima e está agindo imoralmente.
Dentro do modo de valoração que propomos, qualquer relação que for livremente contratada não é imoral. Assim é que um estupro, uma mentira, um assassinato, serão imorais, mas uma relação sadomasoquista que é livremente consentida, o sexo pago, o beijo lascivo e público de um casal homossexual, e o suicídio de alguém que não tem dependentes não o serão.
Para finalizar, gostaria de tecer algumas considerações sobre aquilo que considero como sendo a concepção jesuítica sobre a prostituição que é aquela que considera que a prostituição resulta unicamente de condições adversas de vida e que os profissionais do sexo devem ser salvos, entendendo-se que salvá-los é afastá-los da profissão. Entendo que esta concepção faz parte do modo de valoração dominante, e é muito semelhante ao que fizeram os antigos jesuítas, que acreditavam que sua missão era cristianizar os índios, afastando-os de suas crenças.
Na realidade, não há salvação, na medida em que não há o que salvar. As pessoas podem escolher ser profissionais do sexo, exatamente como poderiam escolher qualquer outra profissão. É claro que seria ingênuo acreditar que para um rapaz bonito, filho de operário, seja tão fácil obter um diploma de um curso superior quanto prostituir-se. Mas, por outro lado, é má fé dizer que é mais difícil conseguir emprego como operário não-qualificado do que como profissional do sexo. A idéia jesuítica, pois, de que os profissionais do sexo devem ser conscientizadas para procurar outra profissão já que estão nesta profissão por necessidade, pode ser válida para alguns casos, mas não universalmente. Trata-se exatamente da mesma coisa que acontece com a maioria das profissões. Há bancários que trabalham em banco porque necessitam, outros porque gostam e outros porque necessitam e gostam. O mesmo ocorre com professores, médicos, operários e todas as outras profissões. Mas os moralistas de plantão nunca pensaram em salvar os bancários, os médicos os professores, enfim, todos aqueles que estão descontentes com suas profissões, exercendo-as apenas por necessidade, e conscientizá-los de que devem procurar outras atividades, o que só vem a evidenciar que esta concepção jesuítica é extremamente preconceituosa e moralista.
A sociedade só será mais justa no dia em que os direitos dos cidadãos forem respeitados, assim como suas escolhas e suas opções pessoais. A construção da cidadania passa necessariamente pelo respeito sincero às diferenças e pelo direito dos indivíduos de se autodeterminarem. Acredito que através de pequenas e quotidianas ações rebeldes, questionando sempre o velho moralismo, será possível construir um novo ethos, uma nova ética, através da qual as pessoas serão avaliadas não pela sua capacidade de obedecer e calar, mas pela sua capacidade de fazer uso da razão e serão julgadas e valorizadas não pelo que fazem ou deixam de fazer entre quatro paredes, mas pela grandeza de seu caráter.

1 comments:

Renata Rainho said...

caraca estava inspirado heim....